Das ruas curitibanas para o barracão do Caxola. O convidado da semana é o poeta, músico e filósofo Plá. O “maluco de cara” contou sua alternativa forma de viver e cantou alguns de seus inúmeros sucessos.
No baú do Vital tem uma reportagem sobre um filme de terror produzido em Matinhos, litoral do Paraná, com a bagatela de 5 mil reais.
Dê o play caro tele-internauta!
1º Bloco
2º Bloco
3º Bloco
4º Bloco
Baú do Vital - Reportagem Filme de Matinhos
Trailer "Escolha Única"
Sarola
O grande poeta, por Charles Bukowski
Fui vê-lo. Ele era o grande poeta. Era o melhor poeta narrativo desde Jeffers, ainda com menos de setenta anos e famoso no mundo todo. Talvez seus livros mais conhecidos fossem Minha Dor é Melhor que sua, Há! e A Goma de Mascar Morta de Langor. Tinha ensinado em muitas universidades, ganho todos os prêmios, incluindo o Nobel. Bernard Stachman.
Subi os degruas da ACM. O Sr. Stachman morava no Quarto 223. Bati.
- DIABOS, VÁ ENTRANDO! - alguém gritou lá de dentro.
- Abri a porta e entrei. Bernard Stachman estava na cama. O cheiro de vômito, bebida, urina, merda e comida podre pairava no ar. Comecei a arquejar. Corri para o banheiro, vomitei e saí.
- Sr. Stachman - eu disse -, por que o senhor não abre uma janela?
- É uma boa idéia. E não me venha com essa merda de “Sr. Stachman”, eu me chamo Barney.
Era aleijado, e após um grande esforço conseguiu arrancar-se da cama e meter-se numa cadeira ao lado.
- Agora, um bom papo - disse. - Eu estava esperando por isso.
Ao seu lado, sobre uma mesa, via-se uma jarra de um galão de tinto italiano cheio de cinza de cigarro e mariposas mortas. Eu desviei os olhos, depois tornei a olhar. Ele levara a jarra à boca, mas a maior parte do vinho escorria para fora, pela camisa e as calças abaixo. Bernard Stachman depôs a jarra.
- Exatamente o que eu precisava.
- Devia usar um copo - eu disse. - É mais fácil.
- É, acho que tem razão.
Olhou em volta. Havia alguns copos sujos, e imaginei qual ele ia escolher. Ele pegou o mais próximo. O fundo do copo estava coberto por uma substância amarela endurecida. Pareciam restos de frango e macarrão.ele pôs o vinho. Depois ergueu o copo e esvaziou-o.
- É, isso é muito melhor. Vejo que você trouxe sua câmera. Imagino que veio me fotografar?
- É - eu disse.
Fui abrir a janela e respirei o ar fresco. Chovia há dias, e o ar estava fresco e límpido.
- Escuta – ele disse-, estou com vontade de mijar há horas. Me traz uma garrafa vazia aí.
Havia muitas garrafas vazias. Eu trouxe-lhe uma. Ele não tinha zíper, só botões, e só o botão de baixo fechado, porque ele estava muito inchado. Ele meteu a mão, pegou o pênis e apoiou a cabeça na boca da garrafa. Assim que começou a urinar o pênis endureceu e se virou para todos os lados, esguichando urina para todos os lados na camisa, nas calças, no rosto, e, incrivelmente, o último esguicho entrou na orelha direita dele.
- É o diabo a gente ser aleijado-ele disse.
- Como foi que aconteceu? – Perguntei.
- Como foi que aconteceu o quê?
- Você ficou aleijado.
- Minha esposa. Me atropelou com o carro.
- Como? Por quê
- Disse que não podia me suportar mais. Eu não disse nada. Fiz umas duas fotos.
- Eu tenho fotos da minha esposa. Quer ver umas fotos de minha esposa?
- Tudo bem.
- O álbum está ali em cima da geladeira.
Fui lá, peguei-o e me sentei. Só havia fotos de sapatos de saltos altos e os finos tornozelos de uma mulher, pernas cobertas de náilon com ligas, pernas diversas em meia-calças. Em algumas das páginas estavam colocadas anúncios de açougue: acem, 89 centavos a libra. Fechei o álbum.
- Quando nós divorciamos – ele disse – ela me deu isso. – Enfiou a mão debaixo do travesseiro na cama e puxou um par de sapatos com longos saltos agulha. Mandara bronzeá-los. Colocou-os na mesinha de cabeceira. Depois serviu-se outro drinque. - Eu durmo com esses sapatos - disse. - Faço amor com esses sapatos, e depois os lavo.
Fiz mais algumas fotos.
- Aqui, olhe, quer uma foto? Aqui está uma boa foto. - Desabotoou o único botão fechado das calças. Não usava nenhuma roupa de baixo. Pegou o salto de sapato e enfiou-o no traseiro. - Aqui, olhe tire essa. - Eu tirei.
Era difícil para ele ficar de pé, mas conseguia,seguran-do-se na mesa de cabeceira.
- Você ainda escreve, Barney?
- Diabos, não paro de escrever.
- Seus fãs não interrompem seu trabalho?
- Oh, diabos, às vezes as mulheres me descobrem, mas não ficam muito tempo.
- Seus livros vendem?
- Eu recebo cheques de direitos autorais.
- Que conselho dá aos jovens escritores?
- Bebam, fodam e fumem muitos cigarros.
- E para os velhos escritores?
- Se o cara continua vivo, não precisa de meus conselhos.
- Qual é o impulso que faz você criar um poema?
- Que é que faz você dar uma cagada?
- Que acha de Reagan e do desemprego?
- Eu não penso em Reagan no desemprego.Tudo isso me enche o saco. Como os vôos especiais e o campeonato de beisebol.
- Quais são suas preocupações, então?
- As mulheres modernas.
- Mulheres modernas?
- Elas não sabem se vestir. Usam uns sapatos pavorosos.
- Que acha da Liberação das Mulheres?
- Na hora que ela estiverem dispostas a lavar carros, se pôr atrás de um arado, perseguir os dois caras que acabaram de assaltar a loja de bebidas ou limpar os esgotos, na hora que estiverem dispostas a ter os seios arrancados à bala no exército, eu estou disposto a ficar em casa e lavar os pratos e me chatear catando fiapos do tapete.
- Mas não há uma certa lógica nas reivindicações delas?
- Claro.
Stachman serviu outro drinque. Mesmo bebendo no copo, parte do vinho escorria pelo queixo para a camisa. Ele tinha o cheiro de um homem que não toma banho há meses.
- Minha esposa – disse -, ainda estou apaixonado por minha esposa. Me passa aquele telefone, por favor. Entreguei-lhe o telefone. Ele discou um número.- Claire? Alô.Claire? – Pôs o fone no gancho.
- Que foi que houve? – perguntei.
- O de sempre. Ela desligou. Escuta,vamos sair daqui, vamos pra um bar. Já fiquei neste maldito quarto tempo demais. Preciso sair.
- Mas está chovendo. Está chovendo há uma semana. As ruas estão inundadas.
- Não me importo. Quero sair. Na certa ela está fodendo com algum cara neste momento. Na certa está com os saltos altos. Eu sempre a fazia ficar com os saltos altos.
Ajudei Bernard Stachman a enfiar-se num velho casaco marrom. Não havia um botão na frente. Duro de sujeira. Dificilmente seria um casaco de Los Angeles, era pesado e desajeitado, devia ter vindo de Chicago ou Denver na década de trinta.
Depois pegamos as muletas dele e descemos com dificuldade a escada da ACM. Bernard trazia um quinto de moscatel num dos bolsos. Alcançamos a entrada e ele me disse que podia atravessar a calçada e entrar no carro. Eu estacionara a alguma distância do meio-fio.
Quando corri para o outro lado do carro, ouvi um grito e um espadanar. Chovia, e chovia forte. Voltei correndo e Bernard dera um jeito de cair e meter-se entre o carro e o meio-fio. A água corria em torno dele, ele estava sentado, a água passando por cima, correndo pelas calças, batendo dos lado, as muletas flutuando no colo.
- Tudo bem – ele disse -, vá embora e me deixe.
- Oh, diabos, Barney.
- Estou falando sério. Vá embora. Me deixe. Minha esposa não me ama.
- Ela não é sua esposa, Barney. Você é divorciado.
- Vá contar essa pra outro.
- Não, não. Está tudo bem. Eu lhe garanto. Vá em frente. Tome um porre sem mim.
- Eu o peguei, abri a porta e ergui-o para o banco da frente. Ele estava encharcadíssimo. Rios de água corriam pelo chão do carro. Fui para o outro lado e entrei. Barney desatarraxou a tampa da garrafa de moscatel, tomou um gole, me passou a garrafa. Tomei um gole. Dei a partida no carro e arranquei, olhando pelo pára-brisa no meio da chuva para ver se encontrava um bar onde pudéssemos entrar sem vomitar na primeira vez que víssemos a cara e o cheiro do banheiro.
Que diabos é este Caxola?
Cultura urbana, e só.
Enquanto a nova temporada está na indústria fabulosa, eis o Blog Caxola.
Caro tele-internauta, dê o play!
21/02/2008
Caxola com Plá, artista de rua
Assinar:
Postar comentários (Atom)
1 comentários:
Fla Henrique aqui é o paranaguá!
acompanhei todo o site !
mto bom continua assim!
abraço
Postar um comentário